A poesia de Ana Cristina Cesar

Publicado: Janeiro 25, 2000
Ano 2 nº 16 – 25 de janeiro a 10 de fevereiro de 2000
Um convite para conhecer a poesia de Ana Cristina Cesar
por Bel Carrilho Martins
borage@uol.com.br

Muitos trabalhos literários atravessam anos e permanecem atuais. Este é ocaso dos poemas de Ana Cristina Cesar. Uma poetisa que influenciou muitos letristas que atuam na música pop.

Com um estilo moderno e peculiar, ela escrevia sobre o cotidiano e sentimentos.

Sua obra foi interrompida com sua morte precoce em 1983. Quem gosta de poesia pode procurar alguns de seus livros editados pela Editora Brasiliense, como: “Aos teus Pés”, “Inéditos e Dispersos” e “Escritos da Inglaterra”.

Poema “Algazarra”
Ana Cristina Cesar
Livro: “Inéditos e Dispersos”

A fala dos bichos
É comprida e fácil
Miados soltos
Na campina;
Águias
Hidráulicas
Nas pontes;
Na cozinha
A hidra espia
Medrosas as cabeças;
Enguias engolem
Sete redes
Saturam de lombrigas
O pomar;
No ostracismo
Desorganizo
A zooteca
Me faço de engolida
Na arena molhada do sal
Da criação;
O coração só constrói
Decapitado
E mesmo então
Os urubus
Não comparecem;
No picadeiro seco agora
Só patos e cardápios
Falam ao público
Sangrento
De paixões;
Da tribuna
Os gatos se levantam
E apontam
O risco
Dos fogões.

  Soneto
Inconfissões – 31.10.68

Pergunto aqui se sou louca
Quem quem saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunta aqui meus senhores
Quem é a loura donzela
Que se chama Ana Cristina

É que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?