Caetano Veloso desfila pérolas e obviedades em CD ao vivo

Publicado: dezembro 3, 1998
Divulgação
Capa do CD “Prenda Minha”, lançamento ao vivo de Caetano Veloso.

Ano 1 – nº 1 – 3 a 17 de dezembro/98 

por Ricardo Fotios
fotios@uol.com.br

Apesar de ter sido gravado a partir de “Livro Vivo”, série de shows de lançamento do disco “Livro”, lançado em 97, “Prenda Minha” não é uma compilação ao vivo do repertório daquele disco. Neste novo lançamento Caetano poupa os ouvintes de ouvirem novamente as músicas pouco interessantes do álbum que acompanhou a publicação “Verdade Tropical” e traz regravações de algumas pérolas e obviedades, suas e de autores amigos.

Mais uma vez a direção musical é assinada por Jaques Morelenbaum, o que já explica parte da obviedade deste CD. Mais uma vez Caetano traz canções importantes de compositores idem, mas que são difíceis de ser encontradas em interpretações bem acabadas, o que afirma a preciosidades do álbum, cujo ápice é a faixa “Sozinho”, de Peninha.

Na abertura do CD, “Jorge de Capadócia”, de Jorge Ben Jor, seguida da faixa título. Assim como fez no show que originou este disco, Caetano utiliza as duas músicas para sutilmente recordar que Miles Davis, nos anos 60, gravou “Prenda Minha” com Gil Evans e a registrou como sendo de sua autoria, quando na verdade se trata de uma canção de autor desconhecido muito popular no Sul do Brasil. Para tanto, abre o disco com a frase “Domínio público, Jorge Ben, Fernanda Abreu, Racionais MC’s, Marinheiro Só, Miles Davis”.

Também estão no CD as músicas “Esse Cara” e “Mel” que ainda não haviam sido gravadas pelo autor e só por isso justificam seu registro. “Linha do Equador”, composta em parceria com Dajavan, é outra das músicas da parte brilhante do disco.

A sequência que fecha o disco em tom de Carnaval dá um clima de apoteose, próprio dos últimos shows produzidos por Caetano. O samba-enredo mangueirense “Atrás da Verde-e-Rosa só Não Vai Quem Já Morreu” aparece aqui como uma marchinha carnavalesca _ que, alías, é o que sempre foi _ e vem seguida de “Vida Boa”, de Fausto Nilo e Armandinho, última faixa de “Prenda Minha”.

As obviedades: “Meditação”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, “Terra” e “Eclipse Oculto”, ambas do próprio Caetano, nada acrescentam à gravação, embora tenham sido importantes nas apresentações ao vivo. As homenagens a Gilberto Gil e Chico Buarque também poderiam ter sido mais felizes. Mas Caetano preferiu gravar as já malhadas “Bem Devagar” e “Drão”, do primeiro compositor, e “Carolina”, do segundo.

E mais duas composições suas vêm desgastadas por inúmeros arranjos feitos ao longo dos anos: “Odara” e “A Luz de Tieta”, esta última que é parte integrante da trilha sonora do Filme “Tieta do Agreste”(1996), de Cacá Diegues, que é tão chato quanto a música tema. Mas alguém deve ter dito a Caetano que a canção é maravilhosa, porque desde que a lançou, há dois anos, o cantor insiste em apresentá-la em trabalhos seus e de outros artistas.